Entre portões e trabalhos

Steve pensando muito nos últimos dias sobre grandes personalidades que mudaram o rumo da informática na nossa era, nos nossos dias.

Influenciado por dois livros fantásticos que estou lendo: A cabeça de Steve Jobs (Ed. Agir, Kahney, Leander – 2008) e Bilionários por Acaso – Uma História de Sexo, Dinheiro, Genialidade e Traição (Ed. Intrinseca, Mezrich, Ben / Matias, Alexandre), sendo esta segunda obra que inspirou o filme em cartaz “A Rede Social”, comecei a me lembrar (ok, o Google me ajudou bastante) de personalidades semelhantes que fizeram e fazem a nossa história. Minha profissão só existe porque esses gênios excêntricos fizeram acontecer.

Excentricidade, aliás, é uma tônica desses sujeitos. Steve, o Jobs, é maluco de pedra. Até dois anos atrás, sua casa era mobiliada apenas com um colchão (no chão), uma máquina de lavar (alemã, caríssima, mas era a única que estava em concordância com as loucuras de Jobs sobre consumo menor de água, design do aparelho, menos uso de produtos nocivos ao meio ambiente etc.), uma cadeira. Só. Um dos homens mais ricos do mundo não consegue se decidir sobre a compra dos móveis. Todos estão aquém do seu tempo.

O que falar então de Larry Ellison, o fundador da multi-bilionária Oracle, que tem o terceiro maior iate do mundo, briga na justiça para decolar e pousar a hora que quiser com seu “jatinho” particular de 38 milhões de dólares na cidade americana de San Jose, claro, no Vale do Silício, tem um caça F-5 como os que a Força Aérea Brasileira tem, que ele mesmo pilota.

Gates, o Bill, saiu da Microsoft em 2008 e faz doações filantrópicas bilionárias desde então. Ao ponto de atrapalhar os negócios da empresa. É claro, muito mais sensato e bonito da parte dele ser um rico que apoia projetos que vão desde pesquisas sobre a cura da AIDS até ajuda direta a países em desenvolvimento. Gates já doou cerca de 30 bilhões de dólares para a caridade desde o ano de 2000 através de sua fundação Bill e Melinda Gates. Talvez ele esteja se redimindo das ousadas ações que o transformaram em capa da Forbes desde 1995 como o homem mais rico do mundo ou pelo menos na lista dos TOP 5. Mas pra quem assistiu “Piratas do Vale do Silício” ou fez meia dúzia de pesquisas na internet, sabe que vários projetos – inclusive o Windows – foram deliberadamente copiados de outras empresas, neste caso da Apple. O processo judicial só se encerrou quando Gates aceitou a proposta de Jobs de criar a versão do Office para Mac. Jogada esperta de Jobs que fez com que as vendas do Mac estourassem. Mesmo que depois de um tempo as pessoas deixem o Office pra lá e usem seu equivalente da Apple, o Works.

E o gênio do Facebook? Com 26 anos Mark Zuckerberg tem uma fortuna pessoal estimada em 6,9 bilhões de dólares e sua empresa só tem 6 anos. Ainda não vi o filme, mas com certeza só vou confirmar que é outro arrogante sem escrúpulos desta minha lista.

A lista não termina, teríamos que acrescentar os fundadores do Google, Yahoo!, do Twitter, do GroupOn e por aí vai.

Eu poderia citar uma lista enorme começando em Henry Ford (ídolo de Jobs) que disse um dia que se fizesse alguma pesquisa de mercado iria ouvir das pessoas quando perguntadas sobre o que elas queriam apenas cavalos mais rápidos.

Essas pessoas tem algo em comum, é o foco deste meu devaneio. São completamente malucas, de difícil relacionamento, inteligentíssimos, tem capacidade de persuasão que deixam qualquer um de queixo caído, são megalomaníacos, não ouvem ninguém, nem institutos de pesquisa, nem engenheiros dizendo que é impossível, não admitem erros nem a pau, trabalham com pouca gente, ou melhor, gostam de trabalhar apenas com os melhores e estes melhores são tão malucos quanto, mas sabem engolir sapos, coisa que os gênios da lista não conseguem.

Eles simplesmente não entram pra perder em nenhuma briga. Jobs conseguiu a proeza de ser demitido da própria empresa que criou e ela foi de água abaixo, quase faliu, até a sua volta maquiavélica. Agora a Apple é uma das maiores empresas do mundo de tecnologia e com a marca mais admirável do planeta.

Nada vem de graça, mas a lição é que a intransigência, a fuga do padrão, da mesmice e do pré-estabelecido fez estes caras milionários muito rapidamente.

Enquanto nós, pobres mortais, almejamos a tranquilidade, a segurança, eles estão arriscando tudo a todo momento e usando a ambição como mola propulsora. Nada é impossível.

Eu fico pensando cá com meus botões que o risco de viver na admiração dos Gates e Jobs da vida me transforma em medíocre espectador das oportunidades estampadas com letras garrafais, mas nas entrelinhas. Só leio o óbvio.

E assim vamos vivendo, entre portões e trabalhos com livros na nossa cara.

Por Marco Guinter

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